Segunda-feira. O dia em que todos os demônios voltam a aterrorizar o indivíduo que espera com todas as suas forças o final de semana para exorcizá-los. Na verdade, todos que trabalham com horários a cumprir, em plena segunda-feira sempre saem às pressas de casa. Pensando nas lorotas que ouvirá do chefe que na maioria das vezes sempre é menos inteligente que o próprio funcionário, principalmente se for em nossa capital.
Se for chegar ao local de ônibus, com certeza se lamentará por que não ganhou na mega-sena no último sorteio. Se for com o próprio carro, ignorará até uma gestante pedindo passagem na faixa de pedestre. No mínimo desejará a morte de todos os motoqueiros que cortam os veículos e de que alguma forma ferem o ego dos motoristas, por chegarem mais rápido aos seus destinos.
Ele chega ao trabalho se benzendo na porta e pensando em como seria pisar no chefe ou quem sabe esmurrá-lo até vê-lo sair da empresa em uma ambulância direto para o hospital. Ele não é nenhum pouco social e faz poucos amigos... típico de um sociopata que está em eterno conflito interno sobre o que fazer com sua pobre e miserável vida. Mas a sua primeira "boa" ação do dia é digitar o status do Facebook:
“Uma semana produtiva e cheia de paz. Que Deus ilumine seus corações e encha seus caminhos de alegrias. Bom dia, para todos!”
Ele é apenas mais um cidadão igual a mim e você... pensa em pornografia, em dinheiro, em como a vida seria melhor sem algumas pessoas indesejáveis por perto, em como o mundo é injusto, que Deus é apenas um refúgio nas horas de aflição, Jesus é apenas um adesivo colado na traseira de um carro do ano e etc, etc, etc... Você sabe, algumas coisas a gente não pode tornar públicas, sobretudo aquelas que a gente realmente sente. Então, é melhor dizer sobre você apenas aquilo que o mundo quer curtir e compartilhar.
Durante o horário do almoço ele come apressadamente no restaurante à quilo e mal mastiga antes de engolir, afinal ele tem uma hora de almoço, antes que chegue atrasado na empresa cheia de irregularidades, mas que não se pode reivindicar nada, pois está preso ao mísero salário mensal que paga parte de suas contas infinitas. Durante as garfadas ele acessa suas redes sociais e por um momento arrisca olhar em sua volta. Todos estão fazendo o mesmo... principalmente tirando fotos dos pratos para publicar no Instagram.
Então ele resolve contar mentiras sobre seu final de semana na rede antes que termine de engolir o restante do almoço. O Rivotril virtual diário foi consumado em uma mesa de restaurante.
Após atualizar a sua linha do tempo ele parte para as atualizações dos outros usuários. Cachorro perdido, gente desaparecida, cachoeira, pôr do sol, frase feita, cerveja na praia, piada velha, indireta para ex-namorado, fulana mudou foto do perfil, pose com celular no espelho, Clarice Lispector, cachorro desaparecido, gente perdida, “diga não ao preconceito” aqui, “mais amor, por favor” ali, “todos contra a homofobia” acolá, Deus fará isso em troca daquilo, Jesus é minha salvação. Isso tudo publicado por pessoas que no íntimo fazem coisas as quais o diabo se orgulharia em recebê-las qualquer dia em seu recinto.
Ele curte tudo e compartilha, arrotando alho e satisfação. Agora o mundo sabe o quanto está diante de um sujeito bacana, querido, amoroso, crítico, inteligente, sagaz. Um funcionário que suporta tudo calado e tenta passar a impressão de bom moço. Procurado e querido por clientes. Sofrendo pressões diárias por saber que seus colegas de trabalhos são ineficientes e não tão educados quanto ele.
Em algum momento ele recebe a ligação daquele cliente que é insuportável mas é o mesmo que paga bem para a empresa. Logo após o almoço ele estará lá à sua espera. As mãos suam, a respiração fica ofegante, o coração acelera e tudo parece estar ficando fora do eixo. O pânico toma conta de sua mente e só o que ele pensa são as horas intermináveis que terá de enfrentar pela enésima vez com aquele mesmo cliente insuportável.
A visão escurece e então o corpo desfalece caindo entre uma cadeira e outra direto para o chão do estabelecimento. O som da sirene explode enquanto a dor no peito o faz ter flashes de tudo ao seu redor. Um grupo de pessoas vestidas de azul e jalecos brancos estão em volta dele... a respiração vai ficando mais lenta e o ar está cada vez mais difícil de ser sentido. Agora tudo é calma... ele ficou bem. Conseguiu de alguma forma fugir de seus problemas, dilemas mal resolvidos e frustrações. Seu corpo está imóvel e assim permanecerá até a decomposição em um túmulo, da mesma forma que será com você que está lendo isso. Um só destino para mais de 7 bilhões de seres humanos.
“Ele está morto”, declara o paramédico. Infarto fulminante.
A empresa mandará as condolências para os familiares e contratará outro funcionário, buscando as mesmas características entre centenas de currículos guardados na gaveta do chefe. Será mesmo que todo ser humano é insubstituível?
Mas apesar de ser uma pessoa comum, ele acabará igual a uma figura pública, sendo curtido e compartilhado pelas fotos tiradas e publicadas por todos que mesmo assustados com um cadáver no chão do restaurante, tiveram a frieza de fotografar e publicar tudo nas redes sociais.
E ele nem teve tempo de fazer o logoff no facebook do celular antes do coração parar.













