"Você é bem revoltado no Facebook" - Isso é o que quase todos os dias me falam.
A ideia de expor o que pensa e o que sente verdadeiramente seria o intuito de quem cria uma conta virtual, estou certo? Eu acredito muito que a internet foi a maior invenção tecnológica de todos os tempos, devido acesso direto à qualquer canto do planeta sem que para isso seja preciso viajar milhares de quilômetros. Mas o que noto nos tempos atuais é uma gente louca para se auto afirmar e se mostrar nas redes sociais. Uma necessidade exagerada e horrorosa de querer passar uma imagem que não existe para alimentar o ego, para ser o bem sucedido numa sociedade totalmente capitalista.
Eu que nasci após a ditadura militar, quase na metade dos anos 80. e não tive contato com uma sociedade que tentava burlar ideias retrógradas e autoritárias de um governo desenfreado; não vivi uma época de cabeças pensantes, jovens nas ruas lutando, artistas exilados por querer falar a verdade. Eu que era criança na época da Geração Coca-Cola não vi manifestações estudantis e a ascensão do rock no Brasil, a atitude de tantos artistas consagrados. Hoje eu tento correr atrás do prejuízo e me informar sobre uma época de cultura, inteligência, vontade, luta e o melhor, PESSOAS COM PERSONALIDADES DEFINIDAS.
Não quero dizer que não existem mais pessoas assim hoje, mas as redes sociais tomaram conta de tudo e de tal forma que o que consigo enxergar é uma juventude perdida, apática, sem ideais, massacrada por um desejo de fama mal resolvido, preocupada com a imagem, com a capa que conta mais que o conteúdo... Pelo menos é assim que enxergo parte das pessoas (não todas) que compõem a região onde nasci. Gente hipócrita que expõe a vida na internet, que cria um personagem para se passar por um papel ridículo de bom moço que não existe.
O que vejo são menininhas que escrevem como se nunca tivessem passado do primário e tiram foto de ladinho, vestidinhos justinhos, curtinhos, fazendo gracinhas para garotos com esteriótipos Globais ou quem sabe de consumidores de vitaminas para cavalo.
O que vejo são adultos, que provavelmente não viveram de verdade, se transformando em adolescentes bobos e banais na era do Facebook. E como eles amam, e como eles adoram os outros, e como eles têm amigos, e como eles sentem uma tremenda necessidade de mostrar que amam e são amados, que são muitíssimo felizes e bem resolvidos e que levam a vida numa boa. E como eles estão lindos nas fotos, com ótima aparência. Um book virtual para se mostrar, uma fama que não existe. Um site de relacionamento como fuga de uma vida banal, vazia e cheia de problemas. É a partir daqui que você me questionará e me chamará de revoltado e tantas outras coisas.
Sua ideia para o que determina "revoltado" é gerada por consequência do que sua mente absorveu todos esses anos. E a verdade, por assim dizer, é como um vírus para essa mesma mente que está cheia de: futilidade, mentira, hipocrisia, auto-afirmação e maquiagem. Se não consegue enxergar a realidade ao seu redor, como conseguirá enxergar a si mesmo?
Maquiar a vida, a rotina, fazer disso um falso marketing pra inglês ver nunca em tempo algum fará bem para alguém, acredite.
O que eu estou fazendo no Facebook, afinal? Seria a sua pergunta agora, certo? Estou inserido nele assim como você está mas sabendo que não preciso fingir estar vivendo num "faz de conta". E o melhor... Não me importo com a opinião de alguém que acessa o meu perfil esperando encontrar um homem lindo, bem sucedido, rico, sarado, maravilhoso etc etc etc e não encontra. Eu sou apenas eu.
Eu não sinto necessidade de expor a vida no Facebook como se eu não tivesse problemas, como se todos os meus finais de semana fossem badalados e quão amigos lindos de morrer eu tenho. Meus amigos, por incrível que pareça são apenas pessoas comuns e maravilhosas por sinal.
Não sinto necessidade de viajar e tirar fotos para postar no Facebook, para mostrar às pessoas, que não têm absolutamente NADA a ver com a minha vida, que eu fui para aquele lugar. Fotos são para guardar de recordação para a vida, para os pouquíssimos amigos e para a família. Não, eu não tenho mais de mil amigos como as pessoas do Facebook, só tenho amigos que me interessam ter e não gosto de tê-los de forma virtual, gosto de tê-los por perto e conversar. E olha que ainda vou garimpar essa lista de amizades virtuais. Gente que me adiciona para depois ficar perguntando se sou revoltado e que em outros casos entram no chat para perguntar: "Quem é você?". Se me enviou solicitação de amizade gostou de algo em meu perfil ou me conhece, estou errado? Eu não saio disparando convites para tudo que é lado.
Eu não sinto necessidade de postar frases sem saber a autoria, ou de escritores de quem nunca li um livro sequer só porque achei bonita. Eu crio meus textos e pensamentos, por mais verdadeiros que pareçam, mas eu crio. Ler livros te fará uma pessoa inteligente, melhor e observadora.
Eu não sinto necessidade de compartilhar piadinhas sem graça, fotos de gente exposta a cenas ridículas, apelação, correntes de oração, seguir perfis de cantores, atrizes ou pessoas afins que malham o dia inteiro para colocar uma sunga ou bikini e conseguir 5.000 curtidas.
Eu passo boa parte do tempo na internet por ter uma profissão que me propõe essa condição, a de Designer Gráfico. Mas acredite, eu prefiro a vida real, prefiro ser uma pessoa real, que sofre, que se diverte, que ri, que chora, que tem frustrações, realizações, problemas, soluções, pouco dinheiro num dia, dinheiro suficiente no outro (porque muito eu nunca tive mesmo). Prefiro ser eu mesmo, olhar no olho, conversar, sair para passear e dar uma cutucada real. Prefiro guardar a hipocrisia, ser sincero com as pessoas, mesmo pagando mais caro por isso à mentir para mim mesmo.
Eu não tenho necessidade de ser um personagem no Facebook.
